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Número de casos de gripe está fora do padrão em MT, diz Vigilância Epidemiológica
Entenda quando e por que a doença pode ser perigosa e o que fazer para evitar uma infecção
Publicado em: 20/04/2018 ás 13:51:00 Autor: Portal Sorriso Fonte: Portal Sorriso
Foto Por: Divulgação

 

 

Em três dias do feriadão de Natal, os moradores da cidade de Erie, na Pensilvânia, tiveram que lidar com 1,5m de neve acumulada nas calçadas. Comércios fecharam, veículos foram abandonados nas ruas e a população resignou-se a ficar em casa. No mês inteiro, nevou o dobro da média. O episódio retrata o rigoroso inverno que os Estados Unidos enfrentaram nessa temporada, pano de fundo ideal para a mais grave epidemia de gripe desde 2009 no país. Mais de 48,3 mil pessoas adoeceram e 142 crianças morreram desde outubro, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês).

 

A epidemia lá fora acende o alerta por aqui: agora, com a gradual queda de temperatura no Brasil, a doença entra em nosso radar. Infectologistas afirmam, em consenso, que o surto nos EUA, culpa do vírus A H3N2, não necessariamente é preâmbulo para uma situação complicada no Brasil. Alessandra Moraes, coordenadora de Vigilância Epidemiológica em Mato Grosso, já está em estado de alerta para o aumento dos casos da gripe causada pelo vírus influenza.

 

Neste ano, a Secretaria de Estado de Saúde (Ses) contabiliza 42 casos de influenza. Esta quantidade representa 26,92% do total registrado, em 2017, quando ocorreram 156 notificações, das quais 148 confirmadas e distribuídas entre os municípios de Cuiabá (62), Várzea Grande (19), Rondonópolis (9), Lucas do Rio Verde (06), Sorriso (05), Tangará da Serra (04), entre outros. No ano passado, não houve óbitos.

 

Já agora em 2018, entre o fim do mês de março passado e o início deste mês, oito pessoas morreram e uma delas teve como causa confirmada o vírus H1N1. Os óbitos ocorrem em Cuiabá, Tangará da Serra, Juína e Várzea Grande. Além disso, das 42 ocorrências 21 são investigadas para o H3N2. Conforme dados da Ses/MT, as notificações deste ano foram em Cuiabá (09), Várzea Grande (02), Pontes e Lacerda (02), Juína, Nova Maringá, Nova Mutum e Sinop, os quatro municípios com uma ocorrência cada.

 

“A gente nunca tem como prever o tamanho do problema. Tivemos uma experiência muito intensa no passado e, agora, temos mais conhecimento. Se necessário, podemos comprar mais equipamentos que ajudem na internação. Mas não devemos ter uma epidemia como a dos Estados Unidos. O número de casos de gripe neste ano está dentro do padrão por aqui”, afirma Alessandra.

 

As internações recentes por H1N1 no Brasil (32 em Goiás, com duas mortes) e de H3N2 (42 no Estado de São Paulo, com duas mortes no município de Taubaté) são vistas como algo normal pela SES. O fantasma do H1N1 agora já não causa mais tanto medo. Em 2010, um ano depois do surto do vírus, a OMS o rebaixou para "sazonal" - na prática, um vírus da gripe comum, assim como outros. Aqui no Estado, inclusive, ele foi praticamente irrelevante em 2017: houve apenas uma internação em hospitais, contra 296 por H3N2.

 

“O H1N1 não é mais aquilo que foi em 2009, quando as pessoas não tinham anticorpos e houve muitas internações e óbitos. Desde 2010, a vacina protege contra esse vírus. Casos sempre terão, inclusive tivemos aqui no Estado no ano passado, mas muito menos do que H3N2”, alerta o infectologista Paulo Ernest Gewehr Filho .

 

O fato é que é difícil antever se haverá ou não uma epidemia neste inverno. Essa, aliás, é uma dúvida que ressurge todos os anos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), devem circular por aqui os vírus A H1N1, A H3N2 e B - os grandes responsáveis pela gripe de inverno, mas que podem ser evitados com a vacina oferecida de forma gratuita pela rede pública de saúde.

 

A grande dor de cabeça é o subtipo A, que é bastante instável e pode sofrer mutação em alguns meses a ponto de driblar a vacina e nosso sistema imunológico - foi o que ocorreu em 2009, com a gripe suína. Mas prever um quadro semelhante é praticamente impossível.

 

POR QUE SE VACINAR TODOS OS ANOS

 

Quem define a composição da vacina no mundo todo é a OMS. Em comunicado anual, a entidade informa os vírus com maior chance de circular no Hemisfério Sul e no Norte após analisar amostras enviadas por centros espalhados em 114 países. A diretriz é, então, seguida por laboratórios para nortear a produção de vacinas. As doses são usadas para combater um cenário cruel: todo ano, diz a entidade, a gripe mata entre 290 mil e 650 mil pessoas no mundo.

 

A "receita" da vacina chega aos laboratórios cerca de nove meses antes da época em que a gripe prevalece - um intervalo de tempo grande, mas necessário para a produção. A fabricação é complicada, são meses para chegar aos pedacinhos de vírus morto que se tornarão a dose a circular na corrente sanguínea das pessoas. No Hemisfério Sul, por exemplo, a composição é definida pela OMS em setembro para que as doses fiquem prontas até o início de abril.

 

“A vacina ensina o corpo a se proteger, como se o sistema imunológico escrevesse um livro sobre o vírus e o deixasse na biblioteca. Quando o influenza realmente entra no organismo, o sistema imunológico vai à biblioteca, pega o livro e produz o anticorpo com a receita que aprendeu”, explica o infectologista Paulo Ernest Gewehr Filho.

 

Infelizmente, não existe uma vacina universal, como a da febre amarela, tomada apenas uma vez na vida. No caso da gripe, há dois problemas: a imunização dura de seis a 12 meses, e o vírus, em especial o influenza A, sofre mutações genéticas em questão de meses. Ele pega um pouco do material genético de seu hospedeiro (porco, ave ou humano) e o mistura ao material genético do ser vivo que o recebe logo depois. Na prática, o vírus muda enquanto pula de galho em galho, o que exige a atualização da vacina.

 

“O vírus influenza A é muito instável. Por isso, se recomenda que as pessoas se vacinem. A efetividade pode variar, mas é melhor do que não se vacinar”, diz o epidemiologista José Cássio de Moraes, doutor em saúde pública pela Universidade de São Paulo (USP).

 

Pandemias caóticas só ocorrem se o vírus muda muito e de forma rápida. Aí, nem os anticorpos naturais nem a imunização surtem efeito. Mas isso é uma exceção, vale lembrar. A vacina é um dos grandes marcos da medicina moderna. Surgiu no início do século 18, quando o médico britânico Edward Jenner observou que mulheres que ordenhavam vacas com um tipo de varíola eram imunes à variação da doença que atingia humanos. A invenção erradicou a varíola, assim como a poliomielite.

 

“A vacina não protege contra todos os vírus da gripe, mas protege contra as formas mais graves da doença”, destaca o infectologista Eduardo Sprinz.

 

A proteção surge entre 10 e 30 dias após a aplicação. É por isso que a campanha nacional de vacinação ocorre em abril, mês que antecede o inverno. Neste ano, a mobilização foi postergada devido a um atraso na chegada das doses e ocorrerá entre 23 de abril e 1º de junho. Quem está de fora dos grupos prioritários pode recorrer a clínicas particulares e desembolsar, em Porto Alegre, de R$ 80 a R$ 135 a dose.

 

Ainda sobre a vacina, nos últimos dias houve relatos de pais que não puderam imunizar crianças entre seis meses e três anos em clínicas particulares. O motivo é que, nas bulas de vacinas produzidas por um laboratório, a indicação era de vacinas para crianças a partir de três anos. Só que, segundo a Secretarial Estadual da Saúde, o próprio fabricante conduziu novos estudos e seguiu a recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de liberar a dose para quem tem mais de seis meses. Só a embalagem que está desatualizada.

 

“A bula que vale é a do site da Anvisa. As crianças entre seis meses e três anos podem se vacinar - diz Isabella Ballalai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm)”.

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